Processo contra Travis Scott pelo sample de 'Alright, Alright, Alright' é arquivado — e sem nenhum acordo milionário

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Chegou ao fim, em 9 de outubro de 2026, uma disputa judicial de quase três anos contra Travis Scott. Dion Norman e Derrick Ordogne, os compositores que processavam o rapper e a Sony Music pelo uso do sample com o bordão "alright, alright, alright" nas faixas "Stargazing" e "Til Further Notice", desistiram oficialmente da ação sem julgamento de mérito (without prejudice), em petição protocolada numa sexta-feira e noticiada em primeira mão pela Billboard.

Ao cobrir a desistência, o Digital Music News resumiu o desfecho em tom de desdém — dizendo que o processo simplesmente "evaporou" — e arriscou um palpite: "Provavelmente as duas partes chegaram a um acordo amigável nos bastidores". Acontece que a suposição estava errada, e o que realmente aconteceu é bem mais curioso. De acordo com a apuração da Billboard, um advogado que representa Scott e a Sony garantiu que não houve pagamento algum. A desistência veio, na verdade, após outra corte decidir que Norman e Ordogne sequer possuem os direitos de edição (publishing) sobre a música que motivou o processo.

Ou seja: o caso não ruiu porque a justiça decidiu se o sample era legal ou não. Ele ruiu porque, para os tribunais, os autores simplesmente deixaram de ter legitimidade jurídica para fazer essa cobrança.

Entenda a disputa em torno do sample

À primeira vista, o imbróglio parecia uma clássica briga de direitos autorais sobre samples no hip-hop. Norman e Ordogne acionaram a Justiça no início de 2024 — o DMN aponta janeiro daquele ano, enquanto a Billboard cita o "início de 2024" —, alegando que Scott utilizou um trecho não autorizado e com pitch alterado de "Bitches (Reply)", clássico do bounce de Nova Orleans gravado pelo DJ Jimi no começo dos anos 1990 (1991 segundo o DMN, 1992 segundo a Billboard). O elemento em questão era a palavra "alright" repetida nove vezes em sequência no início da faixa, segundo a Billboard. O trecho teria sido reaproveitado tanto em "Stargazing", do álbum Astroworld (2018), quanto em "Til Further Notice", de Utopia (2023) — ambas faixas que figuraram no top 40 da Billboard Hot 100. Uma versão preliminar do processo também incluía Metro Boomin e James Blake, coautores de "Til Further Notice", mas ambos foram retirados da ação no início de 2026.

Dois fatores davam peso incomum à queixa dos autores, distanciando-a de processos frágeis sobre expressões curtas. O primeiro era o histórico do mercado: outros nomes de peso já haviam reconhecido a necessidade de pagar e creditar a dupla pelo mesmo sample, como Kid Cudi em "Girls" (2013), Cardi B em "Bickenhead" (2018) e Diddy em "Need Somebody" (2023) — um sinal claro de praxe da indústria que legitimava a autoria. O segundo ponto, revelado pelo DMN, foi que a própria equipe de Scott chegou a procurá-los no passado para negociar a liberação do trecho, o que tornava contraditória a tese defensiva posterior de que a frase não precisava de autorização alguma.

A linha de defesa de Travis Scott e da Sony

Em junho de 2024, Scott e a Sony entraram com um pedido de arquivamento (motion to dismiss) que, como detalhou a Billboard, atacava o processo em duas frentes.

A tese principal sustentava que ninguém pode deter direitos sobre a palavra "alright". Segundo os advogados na petição, "a única suposta violação de copyright aqui é a suposta cópia da palavra 'alright'". A defesa argumentava que "a palavra isolada 'alright' e a frase curta 'alright, alright, alright' carecem do mínimo de criatividade exigido para proteção autoral, tanto por serem curtas demais quanto por serem expressões comuns e corriqueiras do dia a dia". Os representantes listaram diversos sucessos que usaram a expressão bem antes de "Bitches (Reply)" — como "Revolution" dos Beatles, "Saturday Night's Alright" de Elton John e "Let's Groove" do Earth, Wind & Fire — e citaram uma decisão judicial de 2003 que determinou que clichês como "I can't get enough" são banais demais para configurar infração. O próprio U.S. Copyright Office é categórico em sua diretriz básica: "Direitos autorais não protegem nomes, títulos, slogans ou frases curtas."

A defesa, contudo, também apostou em argumentos técnicos e burocráticos: apontou que os autores não comprovaram possuir os registros formais de copyright e que a reivindicação contra "Stargazing", lançada em 2018, já havia prescrevido. E foi exatamente nessa brecha procedimental que o caso se desenrolou. Afinal, uma frase comum pode não ter proteção lírica isolada e, mesmo assim, estar contida em uma gravação fonográfica (master) legalmente protegida. Uma acusação de sampling pode até ter mérito teórico, mas morre na praia se quem está processando não for o verdadeiro dono do fonograma.

O que essa decisão realmente muda no mercado

Compreender esse detalhe técnico é essencial para interpretar o desfecho. Como o arquivamento se deu "without prejudice", os autores poderiam, em tese, reiniciar a disputa. A abordagem inicial do DMN sugeria que a porta continuava entreaberta. No entanto, os fatos revelados pela Billboard mostram que o caso está praticamente sepultado: abrir mão da ação voluntariamente, sem receber um centavo sequer de acordo, logo após uma decisão judicial separada cravar que você não detém os direitos de publicação da música, não é uma pausa estratégica. É uma derrota consumada antes mesmo do mérito ser avaliado.

Com isso, a questão central e mais fascinante segue em aberto: usar um fragmento vocal com pitch alterado extraído de uma gravação original constitui violação de direitos autorais, mesmo quando a palavra em si é de domínio público? O Copyright Office não protege frases curtas, mas gravações de áudio são obras protegidas de forma independente. Era justamente nessa fresta jurídica que residia a tese de Norman e Ordogne. A reflexão final do DMN é certeira, apesar do palpite furado sobre o acordo: com o arquivamento, o debate jurídico sobre o sample permanece uma incógnita. Para que essa resposta surja, será preciso que o legítimo proprietário da gravação original decida ir aos tribunais.

No fim, o episódio deixa um recado de cautela voltado principalmente aos compositores e produtores independentes: receber créditos e royalties em lançamentos de Cardi B ou Kid Cudi não comprova titularidade legal dos direitos, assim como protocolar uma queixa também não. Três anos de disputa em torno de um dos ad-libs mais marcantes do hip-hop terminaram sem resposta da Justiça — simplesmente porque quem cobrava a conta não conseguiu provar que era o dono dela.

Fontes consultadas